COMO AS ARANHAS
Bem... agora estou... estou... assim. Contrariamente aos homens, nós as mulheres, fugimos com as palavras. Ou seja, utilizamos as palavras de uma forma em que nelas se dissolva qualquer significação de realidade. Não, não é mais um capricho feminino: nós gostamos das palavras mas como forma de fatigar o poder que emana dos homens. O poder é feito de coisas. E, para eles, as palavras significam coisas. E é através dessas coisas que os masculinos exercem o seu poder. O poder é medido em quantidade; e quantidade só o pode ser com coisas.
Uma dessas coisas não seria o respeito. Ele não me respeitava. Não me respeitava porque, no exercício de mandar, o respeito é um fio tão ténue que pode ser confundido com a própria luz. Querido... guia mais devagar. Cala-te! Eu guio como quiser! Do medo eu passava à tristeza por ele me falar daquela maneira. De imediato o meu corpo parecia que ganhava peso e eu me afundava gradualmente no banco do BMW, como se a velocidade não viesse da frente, mas sim de cima, esmagando-me como se eu fosse uma meia-laranja apertada contra um cone de um espremedor — a mágoa seria o sumo, claro.
Nesses momentos de glória para ninguém, quem me salvava era a minha filha, ao precisar constantemente da minha atenção. Ela funcionava como um contraponto a ele para quem só as coisas mereciam a sua atenção. Mas a minha filha não era alívio, era só mais uma dor que, paradoxalmente, funcionava como analgésico.
Houve o amor. Sim... houve. Houve isso, o prazer do sexo e até houve respeito. Tudo acabou quando... O que interessa como e quando tudo acabou? Tinha de acabar ( ou será - começar?...) de alguma maneira. Foi como teria de ser, ou de outra forma qualquer... nada de esporádico ou surpreendente. Sim, um destino não o pode ser esporádico; um destino tem de ser uma coisa linear como a sucessão de anos de vida... por isso é que é destino: uma sucessão de acontecimentos que acompanham os anos de vida, lado-a-lado connosco como o nosso cachorro nos acompanha numa caminhada de Domingo.
O que eu mais detestava nisto tudo eram as torradas. Quase que suportava o silêncio quando devia haver resposta; quase que suportava o sexo forçado, boçal, lodoso; quase que suportava o natural substituído pelo ostensivo; quase tudo isso eu suportava... mas, as torradas, as torradas eram-me insuportáveis. Não o pão em si, custava-me antes o ritual de ter de as raspar primeiro para depois lá colocar a manteiga. E ele forçava este ritual pois gostava delas duras como ele. Claro... para isso tinham que ficar mais do que tostadas. E eu sentia-me despojada, naquele gesto de raspar. Via-me como refém solitária num harém... um harém com uma única mulher (é-se mulher ainda, nestas condições?).
De seguida o pequeno almoço era comido sem ele me olhar, ao almoço não encontrava os seus olhos, ao jantar: o mesmo. À noite, ao deitar, manobrava-se em pormenores infinitos de higiene para conseguir ser o último a deitar-se, evitando que eu o beijasse de boas-noites.
Se calhar havia outra mulher na sua vida, pensei na altura. Alguma liceal de voz rouquiça de tanto tentar falar mais alto do que a música nas discotecas. Uma rapariga daquelas que se estatelam numa gravidez calculada, para conseguirem sustento para alguns anos. Uma miúda... aposto, uma miúda... de lycra de cabeça aos pés! (Os pés enormes, claro. As moças de agora têm os pés enormes). Aposto que ela tinha direito a flores. Ou, pelo menos, tinha direito a um olhar.
Mas ele não tinha outra mulher. Não tinha mulher, não tinha homem, não tinha esposa, não tinha filha, não tinha nada. E foi a partir daí que pude compreender que, afinal, o Ódio existia e tinha forma. Eu vi esse Ódio quando ele me confessou que não tinha outra mulher na sua vida, e vi o quanto ele me odiava por ter de dizer essa - ridícula - verdade.
Claro, findo o final, abandonei-o. Ter de odiar o meu próprio marido era-me insuportável. Se ao menos houvesse uma amante para quem eu pudesse transferir a raiva, sobrando para ele apenas o desamor...
Agora... estou... estou assim. Sozinha, sem marido, sem filha e sem amante. Não tenho força. A manhã antecipa o horror de anoitecer e a noite antecipa o horror do amanhecer. Não tenho homem que me ame ou me odeie... não quero, não procuro. Estou assim... como que à espera. E estou só. Estou só... como as aranhas.
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Publicado no Jornal Universitário do Porto - Fevereiro/2001