UM RAPAZ COMO JÁ NÃO HÁ

Personagens: ELE e ELA, VOZ OFF

(Rua com movimento de peões. Edifícios com lojas nos rés-do-chão. Por cima da montra de uma das lojas, um letreiro destacado anunciando: "LIVRARIA" . Ao centro está uma mulher: ELA. Parada como que à espera

. Ao fundo um homem: ELE. Anda de um lado para o outro , com evidente nervosismo.)

ELE

(Dirigindo-se a ELA ,titubeante) — A senhora desculpe... Boa tarde...

ELA

(Rispidamente) — Não estou interessada!

ELE

— Mas se pudesse dar-me um minuto...

ELA

(Sem olhar para ELE) — Já disse o que tinha a dizer. Estou farta de peditórios!

ELE

(Sorrindo timidamente) — Compreendo... Hoje em dia são tantos a pedir para tanta coisa...

ELA

(Ainda ríspida) — Pois é ! Então, adeus! (Vira—lhe as costas)

ELE

(Desesperado) — Espere. Um pequeno favor... Aqui na livraria. (Aponta)

 

ELA

(Olhando para a livraria) — Livraria?! Porquê?! O que se passa com a livraria?!...

ELE

— Nada. Eu é que preciso de um pequeno favor... E estou aqui, apelando à sua bondade... Incomodando, concerteza. Mas existe um pequeno problema, um ...impedimento, o qual poderia ser ultrapassado, superado, caso a senhora estivesse na disposição de ajudar...

ELA

(Para ELE) — O senhor trabalha na livraria?

ELE

— Sou cliente.

ELA

— Não me venha dizer que se esqueceu do livro de cheques, e pretende que eu lhe empreste dinheiro!

ELE

(Saltitante) — Eu tenho dinheiro, eu tenho dinheiro!

ELA

— Então que raio tenho eu a ver com a livraria? (Olhando para dentro das montras) Jamais entrei lá dentro.

ELE

(Solene) — Um livro.

ELA

(Espantada) — Um livro?!

ELE

— Sim. Um livrinho. Está aqui o título do livrinho.(Mostra um papel dobrado)

 

 

ELA

— Não percebo...

ELE

— Está aqui o título do livrinho e... (tira do bolso algumas moedas, fazendo—as saltar na mão)... aqui está o dinheiro certinho! O título... (Exibe o papel) E o dinheiro certo. (Faz saltar as moedas na mão) O que me diz?

ELA

— Espere lá... Você quer que eu vá ali dentro à livraria e compre um livro para si?

ELE

(Acenando afirmativamente com a cabeça) — Exactamente! Teria essa amabilidade para comigo?

ELA

— Porque não compra você o livro? Entra na livraria e, pronto, compra! ELE

(Baixando a cabeça) — São questões... de pormenor.

ELA

— Já sei! Deve ser um livro pornográfico!

ELE

(Ofendido) — Era o que faltava! Então eu ia pedir a uma senhora tal serviço?

ELA

— Então tem dívidas...

ELE

(Fazendo saltar as moedas) — Eu tenho dinheiro!

 

 

ELA

— Que pedido mais estranho.

ELE

(Ansioso) — Então?! Um favorzinho: entrega o papel, entrega o dinheiro e traz o livro cá para fora! Dois minutos!

ELA

(Arrancando o papel das mãos d’ELE) — Como se chama a porcaria do livro?

ELE

(Atrapalhadíssimo) — Não importa... Basta entregar o papel e o dinheiro...Eles embrulham... (ELA desdobra o papel. Ele fala choramingando) Não. Não leia,por favor, por favor. Tenha pena de mim!

ELA

(Lê o papel desdobrado. Arregala os olhos) — COMO VENCER A TIMIDEZ. (Ri) COMO VENCER A TIMIDEZ ?! (Ri)

(Diminuem as luzes)

VOZ OFF

— Com a ajuda do livro – ou talvez não – ele e ela casaram e foram

timidamente felizes.

 © Teixeira Moita

Estreia pelo Teatro Independente de Loures no Auditório da Soc. Port. de Autores.

Página Principal