Câmara Lenta
A vida é como quando tentamos apanhar o sabonete que cai no lavatório. Temos as mãos húmidas de tarefa e o malvado enguia-se pelas nossas mãos de um lado para o outro, em torno do ralo. Tentamos agarrá-lo, mas ele salta e escorrega e - aposto - ri-se de nós. Tudo isto e a água continua a correr... sempre a correr. Deve ser isto a vida, sim: nós perseguindo um qualquer sabonete e a água a correr... sempre a correr, como um Destino.
Pois pode continuar correndo assim ou de outra maneira, pode sim senhor. Ele achava que a vida já tinha corrido demasiado. Desceu do autocarro e dirigiu-se ao prédio amarelado, logo em frente à paragem. A entrada do prédio apresentou-se à sua frente escancarada ,numa permissividade que já não se usa nas cidades. Ele ultrapassou-a, minado por aquela desconfiança que se apossa das gentes quando deparam com a vida vez em quando facilitada. Passou a dita porta, com passos mais pesados do que as compras que trazia em dois sacos plásticos - um em cada mão. Subiu alguns lanços de escada e o seu respirar ofegante contrastava com o vagar com que tudo se fazia.
Chegado ao patamar do primeiro andar, largou no chão os sacos de compras e, ainda ofegante estacou em frente da porta do seu apartamento como se mirasse um quadro numa exposição. Foi aí, então, que vida e sabonetes se cruzaram no seu pensamento.
Aqui, a mecânica dos gestos automáticos deixou de funcionar . A imobilidade substituiu o desembaraçado e habitual restolhar das chaves saindo do bolso para a fechadura Mas desta vez não; as chaves ficaram no bolso, como se estivessem longe de casa - da casa delas.
Estava ele esquecido do mundo, quando ouviu passos - alguém - que subia, como que a trote, a escadaria. Era um jovem, vizinho e filho de vizinhos. O trote cessou mal o rapaz se apercebeu de uma figura em frente a uma porta , ladeado por sacos de compras. Deteve-se em frente do espectáculo e, repuxando o seu queixo para cima do peito murmurou um bom dia que lhe saiu algo entre o pigarro e o cumprimento. Ninguém lhe respondeu. O não-interlocutor (chamemos-lhe assim ), parecia retido nos seus raciocínios e ignorou o cumprimento que o jovem lhe houvera dirigido. Em faltando animação neste patamar, o jovem resolveu não esperar mais por respostas que demoram e trotou mais uns lanços até chegar ao seu andar.
Mais abaixo, tudo na mesma: nem o bater da porta no andar de cima o fez estremecer. Ele manteve-se impávido , pés em cima do tapete de entrada, como se achasse que tudo e todos estavam na expectativa de o ver mexer e ele ,numa birra infantil, quisesse contrariá-los.
O seu pensamento ficou a marinar no assunto da porta de entrada do prédio. De facto era incomum aquela porta estar assim aberta àquela hora do dia. Entre o simples desleixo e a gravosa incompetência, havia que escolher. Escolheu nada. Quem deixara a porta assim, tão desfrutável como gente divorciada, é porque tinha boas razões. Ele poderia ter, também ,boas razões - faltava-lhe apenas o motivo para as ter.
Simplesmente não podia ir mais longe. Essas coisas de julgamento dos actos alheios é para quem tem empregos, famílias e filhos. Não para quem, como ele, tem o papel higiénico a desenrolar sempre para o mesmo lado, e a tigela das sopas de leite sempre lavadinha de bruços em cima da banca da cozinha. Ou, até, o mais grave de tudo: o silêncio. De modo nenhum o barulho, o ruído, a balbúrdia, o tumulto ,mas o silêncio que se esconde por trás da televisão aos gritos ,dos rádios caóticos e das mobílias arrastadas a fingir pessoas. Um silêncio quase tão triste como o silêncio da Morte. Esse ele tem-no e tenta escondê-lo recorrendo à cacofonia da electricidade.
O jovem... o jovem do terceiro andar... pois, fez-se notar ainda há pouco. Ele não retribuiu o cumprimento do jovem, apercebe-se. Tarde, muito tarde. Já há muito que a porta bateu com força no terceiro andar e o apartamento ganhou mais uma vida (uma a somar às que já lá estavam).
Tantas vidas no terceiro andar e nenhuma mais abaixo.
Se calhar fazia frio.Com a porta do prédio assim aberta de par em par , acabaria por fazer frio. Um frio a levar qualquer pessoa a querer depressa o agasalho do lar. Mas nem todas as pessoas pensam da mesma maneira. Podia o frio irmanar-se com o vento e, juntos, assobiar a mais gélida das melodias nas orelhas de quem se atrevesse, mas nada parecia fazer este homem pestanejar sequer. E lá continuava ele ,acabrunhado, em frente da porta do seu apartamento como cachorro encharcado que não late para entrar em casa dos donos.
De repente... risos. Risos abertos, agudos, atrevidos. Risos entrando no prédio pela porta escancarada. Risos de mulher talvez motivados pelo marido que a acompanha. Sobem as escadas. Param os risos, mas prossegue o casal. Vão para o segundo andar. Passam pelo primeiro e o quadro não os parece surpreender:«O nosso vizinho parece-me tão estranho!...» ,comentou ela com seu marido« Viste aquilo? Parecia um morto-vivo em frente da porta!» Contemplou ela.« Deve estar à espera que lhe venha vontade de entrar em casa», remata o marido , sem mais contemplações. Risos. Ainda mais risos.
O seu pé esquerdo dele começou a ficar dormente. Milhões de picadas trituravam-lhe o pé, como um ataque gigantesco de milhar de milhões de mosquitos dolentes. Ele teria de fazer alguma coisa, os mosquitos podiam acordar da facilidade com que aquele pé se lhes entregava como refeição, e a dormência tornar-se-ia maior. E teria de se mexer ,sair daquela greve não declarada , ou até nem greve, nem vontade ,nem decisão... só um estado .Mesmo assim, cedamos à teorização das coisas, um estado absoluto, um estado do qual não se chegou nem daquilo se parte ,um estado ... ora bem... um estado absoluto! Mas ,é engraçado, como chamam dormência a uma situação que nos leva a comparar com tudo, excepto dormir. Parece mais um tremor de terra pessoal do que outra coisa, (aqui sucumbimos totalmente à teorização. É compreensível: sobre a imobilidade pode-se apenas teorizar. Que novas, trovas, canções, poemas, paixões ou tributos poderá suscitar a imobilidade?).
«Porque estavam eles a rir?», pensou ele. Algo o incomodou naquela ligeireza de risos. Mais do que a posição em que se mantinha há um bom par de momentos. O riso dos outros mostra-nos a nós. E talvez ele se tenha sentido exposto, exibido, ridicularizado, alvo.« Talvez fosse malícia, o motivo da chacota» , calculou ele. Malícia faz rir as mulheres e excita os homens. Ou, no fundo, talvez elas se riam devido à excitação dos homens - malícia será para disfarçar o verdadeiro motivo: elas riem-se dos homens e nada mais .
Basta uma dúvida para transformar as coisas em certezas. De qualquer das maneiras não se estavam a rir dele, por isso nada o demovia agora de fazer o que não queria. Não queria mexer-se dali; logo, permaneceu quieto.
A partir daqui - como em outras situações extremas - só nos resta como derradeira esperança os deuses. Sim, os deuses será a única coisa capaz de resolver ,de uma vez por todas, esta negação do Movimento do Mundo. Reconheçamos: houve exagero por parte dele. Como se atreve a não entrar em casa ,pousar os sacos de compras e fazer o que todos fazem com mais sentimento, ou menos sentimento, com mais raiva ou menos raiva, com desleixo ou sem ele, com preguiça ou diligência, com substância ou futilidade... Fazer o que todos fazem: existir !
Ah! Mas os deuses não podem deixar as coisas assim! Quem se pode dar ao luxo de estar em frente a uma porta de um apartamento, daquela maneira... parado... sem existência aparente? Não! Os deuses têm de actuar! Já se viu que não basta um pé dormente, alguns vizinhos ou coisa semelhante. Tem de haver um contra-ataque implacável que sirva como lição para todos os que desafiam ... para todos os que desafiam, nada mais. Vá lá, uma cólica, um acidente, alguém que venha aos tombos pelas escadas abaixo desde os andares superiores. Se calhar é pouco. Gente desta costuma ser egoísta. Vejamos... E se quem caísse palas escadas abaixo, obrigando o desafiador a deixar-se de imobilidades, fosse aquela baixinha do terceiro direito? É que ela está grávida! E, caso o nosso desafiador deparasse com uma mulher grávida a rebolar pelas escadas abaixo, e continuasse na sua atitude irresponsável de tentar travar o Mundo, então... meus senhores e minhas senhoras... os deuses não devem ser complacentes: gente assim terá de morrer! Isto é, deixar de existir com o acordo dos deuses e o conhecimento de todos.
Mas esper' aí... acontece algo! Ele mexeu-se!! Sim, é verdade! Primeiro dobrou-se ligeiramente para a frente, como numa vénia incompleta; depois agitou a anca de um lado para o outro, em gestos lentos parecendo gestos de robot. Afinal ele vai ter o castigo merecido. E já tardava. Estávamos a ficar fartos de tanta arrogância por parte deste desafiador ,( que já não é um desafiador - é um incauto!). Mas atente-se no que se passa naquele primeiro andar. Vejamos como, para se obter harmonia, há que limar os excessos com a mesma veemência com que eles se nos apresentam. E está à vista de todos: ele tenta manter-se erecto e imóvel, mas tal é-lhe difícil. Agora algo o faz olhar para a sua coxa direita. O rosto, antes hirto, (adivinha-se, já que ele estava de costas); o rosto mudou para uma expressão estranha, como se o espanto e o medo coincidissem nele naquele momento.
E o caso era para isso tudo e muito mais. O que ele olhava na sua coxa direita era, nada mais nada menos, do que o seu próprio bolso das calças, que parecia ter vida no seu interior. A ponto de ninguém poder ficar indiferente àquele bolso, que inchava e desinchava como um gato assanhado dentro de um saco. E, sem que nada o fizesse prever... Subitamente... Hein?!... As chaves de casa soltaram-se do bolso opressor e ficaram a balouçar, penduradas numa fina corrente presa à presilha das calças dele. Atenção: as chaves fizeram-no SOZINHAS!!
E foi sem a ajuda de mais ninguém que elas tomaram balanço, tal como um pêndulo com decisão própria e , com uma precisão sobrenatural, uma das chaves encaixou-se na fechadura da porta, rodou-se e a mesma porta abriu-se até bater na parede do hall. O apartamento ficou disponível para que ele entrasse. Isto porque o chaveiro esticou a corrente no ar, forçando-o a entrar - em desequilíbrio - em casa. De seguida, a porta fechou-se num estrondo de quem a fecha zangado.
*
As compras ficaram cá fora. Mas sabemos que, passadas algumas horas, o homem que ousou desafiar tudo e todos veio recolher os sacos, sumindo-se para dentro de casa, e passando a existir normalmente tal como se pedia a um homem de bom senso.
A harmonia reinstalou-se no prédio e, consequentemente, o mundo acalmou um pouco mais.
© Teixeira Moita
(Publicado na revista Águas Furtadas - Porto, Abril/2001)