A GORDURA DOS HOMENS DO LIXO

Romance narrado na primeira pessoa. Divide-se em três partes: O PRINCÍPIO, O MEIO e O FIM. O protagonista (não lhe é atribuído um nome), sai de sua casa uma noite, após uma discussão conjugal. Vagueia pela cidade. Presenciando uma tentativa de violação, impede o acto e é espancado. Ferido e abandonado num beco, um saco transparente contendo lixo torna-se a sua única companhia. Com base no que lhe suscita cada detrito dentro do saco, o protagonista enceta uma análise introspectiva. Os seus pensamentos são ponteados por um episódio marcante da sua infância. Na parte final ele tem um delírio, interrompido pela chegada dos funcionários da recolha de lixo. É resgatado e colocado numa ambulância, entretanto chamada.

(Extracto)

Se o amor ladrasse, a paixão mordia. Sendo exactamente por motivos de paixão que eu, circunstancialmente, me encontro na disposição de me ocupar sobre coisas diferentes. E apesar de me sentir numa probabilidade em estar de pernas para o ar, consigo aperceber-me de algumas coisas. Como... Uns passinhos metálicos dentro do meu relógio de pulso. Um tiquetaquear que fomenta os ponteirinhos no seu percurso fortemente anti-gravítico. Ou seja: a mesma força que empurra os ponteiros para cima, sustenta-os na sua descida. Engraçado... Quem diria ser possível juntar-se, num mesmo plano de pensamento, Tempo e Gravidade? Um não condiciona a outra, certo. Assim e de qualquer das formas existirá a suspeita, tão perceptível quanto a comichão, de que a maioria dos mecanismos terá sido construída com um desígnio maior: a fuga à Gravidade. Será este o caso do relógio 3/4 meu 3/4 de pulso.

O disparate está por aí. E basta um momento do nosso pensamento para que ele surja. No entanto... Vejamos... Alguém, atrevo-me na interrogação, se preocupou ultimamente com a relação por demonstrar entre o Pêndulo de Pascal 3/4 fundamento da mecânica dos relógios 3/4 e o objecto que nos deu a noção de gravidade, O Pomo de Newton? (Não confundir com o pomo-de-adão de Newton.) Provavelmente poucos ou nada se preocuparam com isto. Até hoje, aqui, neste momento... eu, a olhar para este meu relógio de pulso, preocupei-me.

Em contraponto a toda esta ciência, poder-se-ia invocar princípios divinos expressos em verbo. Mas o verbo... é-me impossível articulá-lo assim... com a boca tão cheia de sangue, qual bata de parteira em fim de turno. Ui!!... Os dentes! Cuspo mais um, a crer. A minha língua, parecida com moreia em toca, procura mais outro. Se eu estivesse em condições, podia contar os alvéolos vagos. Não. Prefiro deixar isso para médicos e polícias. Enquanto não chega ninguém... Talvez seja boa ideia preparar uma explicação para o que se passa; ou melhor: para o que é passado. Comecemos por aqui. O que hoje é uma ruína foi, outrora, uma bela mansarda. Isto vale tanto para a engenharia civil como para qualquer exemplo de existência humana. Pode, até, ter validade para casamentos. O meu está uma ruína. Vê-se pela interrogação que se tem avolumado até à neurose: "Foi para isto que eu me casei?!". Naquele casamento já poucas esperanças poisavam. É como tentar enfiar uma tomada noutra tomada 3/4 não dá. Eu e ela fazíamos costume em tentar compatibilidades e acho que já desistimos. Contudo, deixe-se de pensar que somos incompatíveis pelo casamento. Nada. Eu, ainda a linha da vida na palma da minha mão, não passava de uma rugazinha, já chocava contra tudo. Casando, passei a chocar mais com a minha mulher. Isso mais o acreditar que viver com outra pessoa atrasa o conforto. E deve ser um sentimento comum, este: os meus amigos riam solidários quando lhes contava que me casei porque, a dada altura, falhou-me o gasóleo na motosserra. Parece uma história triste de amor e paixão. E talvez o seja. Só os desesperados sucumbem à paixão; e eu apaixonei-me desesperadamente. Daí...