MIMOS
Personagens: HOMEM e MIMO
(Rua. HOMEM veste fato completo, mala diplomata. Tem na mão um telemóvel. Caminha para trás e para a frente. Transpira dinamismo.)
HOMEM (Marca e fala para o telemóvel)
¾ Estou, Carlos?... Sim... Jantas Terça-feira com os clientes?... Sim... Não, nem penses! Mais não ofereço! E eu sou burro? Quanto?!... Estão malucos! Pago metade e que se dêem por satisfeitos!… Carlos, desculpa mas negócio é negócio! Ninguém anda aqui para perder dinheiro!...(Entra MIMO maquilhado e vestido como tal. Dirige-se ao HOMEM que fala ao telemóvel e imita-lhe os gestos.)
(HOMEM) Carlos... Carlos... Espera aí que está aqui um tipo a chatear-me. (Baixa o telemóvel e fala para o MIMO) Se faz favor... Estou aqui a tratar de negócios... (MIMO faz gestos largos de espanto, como se tivesse sido acusado injustamente. HOMEM fala novamente para o telemóvel) Carlos?... Desculpa... O quê?!... Nada de especial... Um daqueles caramelos que anda na rua a imitar quem passa. Um mimo, exactamente. (MIMO fica radiante e aponta para si próprio, agradecendo os aplausos imaginários.) Carlos?!... Estou?!... Estou?!... Bolas, perdeu-se a chamada. (Guarda o telemóvel. Olha para o MIMO. Ambos fixam o olhar um no outro durante um tempo.) Estás a olhar para quê?! (MIMO, repentinamente olha em frente com uma expressão cómica) Não tens mais que fazer do que incomodar quem trabalha? (MIMO exibe gestos a explicar que aquele é o seu trabalho.) Ah! Esse é que é o teu trabalho?!... (MIMO, com a cabeça, acena que sim) Rico emprego! Também eu queria um emprego assim! (MIMO diz que não com a cabeça. HOMEM toma uma atitude mais relaxada.) Tenho uma família para sustentar. Por isso compro e vendo apartamentos. (MIMO indica que ele ganha muito dinheiro. HOMEM ri.) Quem me dera! Eu recebo apenas uma comissão muito, muito, pequenina.(Um tempo. Olha para MIMO) Provavelmente tu fazes aquilo de que gostas.(Um tempo. Fixa o vazio)Sabes o que eu sempre quis ser?... Poeta. (MIMO ensaia pose de pensador) Verdade! Sempre quis ser poeta, escrever como se a alma realmente existisse e criar paradoxos que tenham sentido... Claro, para se ser poeta é preciso pensar, pensar muito. E para conseguir pensar tem de haver silêncio.(Fala alto aos ouvidos do MIMO) por isso detesto mimos! O silêncio deles obriga-me a ter pensamentos!! (Tom normal) E eu não posso ter pensamentos, tenho de vender e comprar apartamentos, percebes?! (MIMO mima choro) Não tenhas pena de mim. Ninguém tem pena dos poetas que não são poetas. (Extremamente triste MIMO estende a mão a HOMEM, pedindo dinheiro) Dinheiro não... Sabes como é?... uma família para sustentar. (Abre a mala diplomata) Tenho aqui duas bananas, queres lanchar comigo? (MIMO acena que sim. HOMEM e MIMO sentam-se no chão, HOMEM retira da mala uma banana e entrega-a a MIMO. HOMEM finge que retira da mala outra banana. Assim, sentados no chão – com gestos síncronos – MIMO descasca e come uma banana real, enquanto HOMEM mima que descasca e come uma banana também. E assim ficam um tempo enquanto as luzes diminuem.) •
© Teixeira Moita
Publicado na revista
Águas Furtadas - Porto/2000